?MELHORIDADE?
Existem algumas expressões criadas pela mídia contemporânea que não dá para se entender. Hoje já não se diz ?velhice? ou ?terceira idade?. Acima de sessenta anos, estamos na ?melhoridade ? .
E parece que a maioria gostou do termo porque rejeitam ?velhice?, até mesmo tornando-se a palavra, uma palavra tabu, sendo considerada politicamente incorreta. É! Tem mais essa agora! Existem palavras e expressões que não se deve dizer. Deve-se viver no eufemismo.
Assim, os pobres e os miseráveis transformaram-se em ?carentes? e ?desprotegidos pela sociedade?. Os negros correspondem aos ?afro-descendentes?. Os índios são os ?povos da floresta?. Os portadores de deficiência física são tratados de ?especiais?. Os mendigos são denominados de ?moradores de rua?. E os ?branquelos?? Vão ser o quê? Caucasianos, talvez? Ou vão continuar sendo os branquelos?No Brasil, realmente, os branquelos estão em extinção; já são a minoria. E como minoria, mereceriam mais respeito. Eu mesma sou uma mistura de branco com índio e negro. E então? Sou o quê? Mestiça? Prefiro que me denominem ?brasileira-padrão?.
Portanto, não discordo do eufemismo praticado em nome da delicadeza e do respeito ao próximo. Mas, chamar a velhice de melhoridade já é um pouco demais!Já é cinismo! Esse termo, ?melhoridade?, pode ser adequado para a terceira idade européia, mas não é para brasileiros. Que melhoridade é essa, que não tem nenhum benefício a que deveria ter direito?
A saúde do povo brasileiro da ?melhoridade? já é precária, mas ele tem que viver sem assistência médica de qualidade, sem remédios, sem médicos e sem dentista. Morrer nas filas de espera do SUS- Sistema Único de Saúde- é curtir a ?melhoridade?? Morrer nas filas, esperando por um remédio sem o qual não se pode sobreviver ou sem uma operação ou um transplante necessários, é curtir a melhoridade?Ser explorado pelos planos de saúde ?complementares? (complementares a quê?), que cobram da melhoridade as mais altas taxas de adesão e permanência é curtir a melhoridade?A maioria absoluta da terceira idade brasileira não tem dinheiro para pagar esses planos de saúde!Morre no SUS mesmo!
A melhoridade brasileira não tem direito de curtir a aposentadoria. Não pode ir pescar, não pode curtir os netinhos, não pode viajar. A aposentadoria cada vez lhe é concedida mais à beira do caixão. A previdência social só aceita osso limpo! Descarnado! Totalmente inútil. Ou concede um benefício irrisório que mais mereceria ser denominado de esmola ou malefício.
Assim, a melhoridade tem que se arrastar, mesmo doente e sem assistência médica e trabalhar. Trabalhar até morrer! E a mídia expõe pessoas de sessenta e cinco anos ou mais, em plena atividade, cheias de saúde e vigor físico. É uma minoria de privilegiados que não foi espancada pela vida. Que absurdo! O povão, nessa idade já está no bagaço!
E quanto á Educação? O governo não dá bolsas de estudos para pessoas da terceira idade, em final de carreira. Vocês sabiam? O governo não quer investir na melhoridade. Que se danem! Vão para casa ver televisão! Deixem os lugares para os jovens! Essa é a política no Brasil.
Chego em frente ao espelho. Desinfeto um bloco dentário provisório, que se perde pela minha boca a mais de um ano. Recoloco no lugar. Aguardo uma verbinha extra para o dentista.Olho para minhas rugas e penso: já passou da hora de dar uma levantada neste rosto enrugado! Mas, cadê a verba? Cadê minha aposentadoria?Penso: por quanto tempo mais precisarei esperar que o IAMSPE restabeleça os convênios com médicos e hospitais para que eu possa fazer um check-up?Minha ?melhoridade? se aproxima. Sinto- me doente. Arrasto-me para o trabalho. Sinto muito medo do futuro, do tempo que me resta. Estou nas mãos do destino!
Texto de Rita Velosa
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Oi Rita, compartilho sua opinião! Bem observado... muito justa a indignação. Aqui no Chile a reforma da previdência na época do Pinochet arroxou em uns 75% a expectativa de remuneração dos aposentados...
Também me revolta a utilização de expressões com fundo político como"Latino" (desde quando yanomâmi, Aymara, Quéchua Maia, Mapuche, negros descendentes de angolanos, moçambiquenhos etc. são latinos?). Ou como indica no manual de redação do Estado de S. Paulo para referir-se aos cidadãos dos EUA: "americano" em vez de "estadunidense" (sei que é mais longo, mas e daí? Não tem os guatemaltecos, soteropolitanos?.. ;-)
ou quando se diz que os sem-teto "invadiram" um edificio abandonado quando a terminologia adequada é "ocuparam"...
abraços
Tenho uma coleção dessas fotos.. hehehe.
Rita, primeiramente quero destacar o ótimo artigo sobre expressões, diria até sobre a 'banalização das expressões'. Por isso vou discordar parcialmente sobre alguns pontos, especificamente sobre a expressão 'melhoridade'. Sobre todas as outras eu concordo plenamente.
Digo isso porque 'melhoridade', até onde tenho ouvido tal expressão é muito usada por profissionais das áreas de gerontologia e fisioterapia associada a um maravilhoso trabalho que vêm desenvolvendo, ou seja, pra fazer valer o que de fato idosos merecem e não o que é a realidade no Brasil, como você mesmo ressaltou perfeitamente. A EACH, da USP Leste é um exemplo.
Essa expressão retrata bem as novas tendências tanto de medicina quando no cuidado social que pessoas acima de 65 anos devem se beneficiar. Enfim, é uma expressão legítima àqueles que assim a tratam, com seriedade e completamente voltados à necessidades reais. Com certeza a mídia (como sempre) banaliza.
Enfim, é apenas um discordância pontual para algo que pode ser discutido com mais tempo. De qualquer forma, muito bom seu artigo.
ABrs.
Rita,
Ótimo texto! Parabéns!! O que os velhos deste país necessitam são de políticas sérias voltada para a qualidade de vida de nossos idosos.
Um abraço!
Raimundo Barbosa Filho
De Porto Nacional-TO